No início eram os rebentos…as crianças todas espalhadas pelo areal da terra, germinavam genitálias amorfas e peles texturadas. Fundiam-se em vendavais profundos essências ternurentas, as sementes de Deus.

Depois veio a colonização dos corpos, o falo, todas as aprendizagens tribais demonizadas e reduzidas a xenofobia. Os corpos deixaram de ser dádivas, palco de jogos e travessias e passaram a ser propriedade. Deixaram de ser a ponte entre o espírito e a matéria e passaram a ser uma finalidade, um produto rotulável.

Quando era pequene falava com Deus, juntes lutávamos por revoluções, fazíamos ciladas á justiça. Deus era sem dúvida ume ativista. Logo percebi que Deus com quem falava não era o mesmo por detrás da instituição católica. Não naqueles termos.

Há uma sinergia infantil e traquina na resignificação de fotografias católicas. Por isso, esta exposição é para as crianças. As crianças amedrontadas na sala de pânico do subconsciente. A criança escondida, e e pré-adolescente indignade. O rebento traumatizado por forças patriarcais. Aqui lhes presto homenagem. Ao armário coletivo no qual os nossos antepassados moravam.

A cultura lgbtq foi apagada da história (deixando raras evidências), só agora começa a ser glamorizada e convertida num produto exótico em massa. O token necessário para fazer a máquina moral capitalista continuar a rodar. Mas as atrocidades continuam a cair sobre a terra, sobre es filhes da terra. A reclamação da história, não é agradável. É perspicaz, peculiar, encontra humor na desgraça, é extra, resignadamente é queer. Nestas cerimónias e marcos de vida católicos vejo um resgatar de significâncias, as vidas anónimas tornam-se muitíssimo próximas pois à uma alteração pela comunidade queer. Como se de um manifesto visual se tratasse. A reclamação da história é parte do processo de cura, e acima de tudo é poesia.

A criança sobreviveu face ás adversidades, graças à poesia. E a poesia une-nos aqui hoje. A poesia tem este poder revolucionário de desenhar janelas onde todas as portas parecem fechadas.

Não quero que esta exposição seja apenas um evento de consumismo cultural, um marco na agenda gay. Quero que a minha arte não sirva de depositório, mas sim de ninho, esse ninho é construído a partir de pedaços quebrados, de relíquias e de intransigências, um ninho resulta porque une matéria dispersa em coesão sincrónica. Um ninho é capaz de enfrentar tempestades e acolher nova vida. O ninho é também um lugar protegido e onde trazemos quem realmente nos compreende, mas também aonde enfrentamos as sombras e onde podemos confortavelmente resinificar as feridas e preparar-nos para o próximo voo.

Exposição Ninhada no Espaço TRANS, Rua Liberdade 20A, Almada


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